O Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da Universidade de São Paulo (USP) completa, no dia 24 de junho, 53 anos de atividades. Em virtude da pandemia de covid-19, não haverá a tradicional solenidade comemorativa no jardim interno, mas a data é marcada por significativos progressos, como um projeto-piloto para testagem de profissionais e pacientes para a covid-19, os 30 anos do Programa de Implante Coclear da instituição – pioneiro no país e com mais de 2.000 cirurgias realizadas – e a expectativa da abertura do Hospital das Clínicas (HC) de Bauru.
Para o professor Carlos Ferreira dos Santos, superintendente do HRAC-USP e diretor da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB-USP), esse é um importante momento para agradecer. “Além de todos aqueles que nos antecederam e que têm seu DNA marcado indissociavelmente nessa trajetória de sucesso do HRAC-USP – em especial o querido professor José Alberto de Souza Freitas, o Tio Gastão [ex-superintendente do HRAC-USP e docente aposentado da FOB-USP] –, é preciso agradecer a todos os servidores técnicos e administrativos, docentes e alunos, que ajudam, todos os dias, a manter e aperfeiçoar o trabalho e excelência de nossa instituição”.
“Temos uma equipe muito comprometida e focada em oferecer o melhor tratamento e acolhimento aos pacientes e familiares, além de muito capacitada e conectada para trazer inovações e desenvolver as melhores práticas em ensino e pesquisa”, completa.
Atuação durante a pandemia
Apesar das cirurgias eletivas e os atendimentos ambulatoriais estarem suspensos temporariamente em virtude da pandemia de covid-19, o HRAC-USP manteve-se aberto e atuante durante todo esse período.
Na área de assistência, foram mantidas equipes presenciais para o atendimento de urgências e demandas prioritárias. Leitos de UTI (localizados na Unidade 1) também permanecem disponíveis para o atendimento de pacientes com anomalias craniofaciais elegíveis para a instituição e que necessitem de cuidados intensivos (por meio de transferência hospitalar).
No campo acadêmico, mesmo com as medidas de restrição de acesso no âmbito das Universidades, houve manutenção das atividades de ensino – como aulas, defesas, entre outras – de forma não presencial, a distância, seguindo as orientações das Pró-Reitorias de Pós-Graduação e de Cultura e Extensão da USP.
Já na área administrativa e de apoio, destacam-se atividades como a colaboração da equipe do HRAC-USP para viabilizar a abertura do HC; a disponibilização de 3.000 máscaras cirúrgicas do HRAC-USP à Prefeitura Municipal de Bauru, para ajudar a suprir a necessidade do insumo nas unidades de saúde da cidade (por meio de empréstimo); e doação de câmara fria do HRAC-USP para reativação do Serviço de Verificação de Óbito (SVO) do município (bem apreendido no Porto de Santos e recebido da Receita Federal por meio de Ato de Destinação de Mercadorias).
Protocolo de biossegurança e testagem
Ainda não há data definida para o retorno efetivo das atividades presenciais no HRAC-USP, mas, por determinação da Superintendência, está em desenvolvimento – numa colaboração de todas as áreas e da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) do Hospital –, um protocolo de biossegurança, com vistas a planejar e preparar uma retomada gradual e segura.
“Baseado nas diretrizes da Reitoria da USP e dos órgãos e autoridades de saúde, esse protocolo considerará o tipo de atendimento oferecido no HRAC-USP, além de elencar os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) necessários para o desenvolvimento de cada atividade, preservando a saúde do paciente e da equipe”, assinala o superintendente do HRAC-USP, professor Carlos Ferreira dos Santos.
Outra medida que será adotada e que visa a saúde e segurança dos profissionais e usuários, segundo o dirigente, é a testagem dos pacientes e da equipe para a covid-19, no Laboratório de Farmacologia da FOB-USP, por meio da técnica de RT-PCR para detecção do material genético do novo coronavírus.
“Já estamos na segunda semana do projeto-piloto. A expectativa é testarmos tanto os profissionais como os pacientes do HRAC-USP, com insumos adquiridos por meio de recursos próprios do Hospital”, explica o superintendente.
30 anos de implante coclear
Outro marco importante nesses 53 anos do HRAC-USP é a celebração dos 30 anos do Programa de Implante Coclear da instituição.
Dispositivo eletrônico inserido cirurgicamente para estimulação direta do nervo auditivo – indicado para perdas severas e profundas e quando não há benefício com aparelho de amplificação sonora individual (AASI) –, o implante coclear é disponibilizado pelo HRAC-USP desde 1990, de forma pioneira no país. A primeira cirurgia de implante coclear multicanal (tecnologia utilizada até os dias atuais) no Brasil foi realizada na instituição bauruense, sob a coordenação do médico otologista Orozimbo Alves Costa Filho, hoje professor sênior da FOB-USP.
O Programa de Implante Coclear do HRAC-USP é também o maior serviço do país em número de implantes exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No final de 2019, atingiu a marca de mais de 2.000 cirurgias realizadas e 1.500 pacientes implantados desde 1990.
“Um avanço recente importante foi a incorporação ao convênio de assistência à saúde, em 2019, dos procedimentos de manutenção e de substituição do componente externo de implante coclear e também a realização de implante coclear bilateral, para atendimento de pacientes com deficiência auditiva via SUS. A incorporação ocorreu por meio da Portaria MS 4.421, de 28/12/2018, que habilitou o Centrinho como Serviço de Atenção Especializada às Pessoas com Deficiência Auditiva, segundo os critérios da Portaria MS 2.776/2014”, explana o professor Luiz Fernando Manzoni Lourençone, chefe técnico da Seção de Implante Coclear e diretor clínico do HRAC-USP e docente do Curso de Medicina da FOB-USP.
“Tínhamos programado um evento comemorativo dos 30 anos do Programa de Implante Coclear para esse mês de junho, mas, em virtude da pandemia, teve que ser adiado. Agora, estamos organizando para o segundo semestre. A data ainda será definida, mas deverá ser em formato virtual”, conta o médico.
Também completa 30 anos em 2020 o Centro Especializado no Desenvolvimento Auditivo (Cedau) do HRAC-USP, ligado ao Serviço de Educação e Terapia Ocupacional do Hospital. O Cedau visa favorecer o desenvolvimento da audição e da linguagem oral de crianças usuárias de implante coclear e aparelho de amplificação sonora individual (AASI), por meio da atuação de fonoaudiólogos, psicopedagogos e psicólogos. O processo de reabilitação envolve ainda o aconselhamento aos familiares, a inclusão dos participantes no ensino regular e a capacitação dos professores das crianças. Desde 1990, aproximadamente 230 crianças já foram atendidas e 1.400 professores foram capacitados.
HC e Medicina
O HRAC-USP também vive importante momento com a expectativa da abertura do Hospital das Clínicas (HC) da USP-Bauru, complexo que absorverá e ampliará suas atividades assistenciais, de ensino e de pesquisa.
Conforme anunciado pelo Governo do Estado de São Paulo em 21/05/2020, as atividades do HC contarão, inicialmente, com 40 leitos de baixa e média complexidade para atendimento de pacientes COVID-19 com sintomas mais leves, como retaguarda ao Hospital Estadual de Bauru (HEB) – que é a referência para covid-19 de Bauru e outros 37 municípios.
“A USP tem papel fundamental nesta conquista histórica que será a abertura do HC, seja cedendo uma nova unidade hospitalar pronta – com necessidades de adequações pontuais –, seja disponibilizando mobiliário como camas, cadeiras de acompanhante, armários, além de infraestrutura básica de gases”, destaca o professor Carlos Ferreira dos Santos.
O dirigente ressalta ainda que a abertura desses 40 leitos iniciais para ajudar no enfrentamento da pandemia de covid-19 será só um primeiro passo. “O Decreto Estadual Nº 63.589, de 06/07/2018 – que criou formalmente o Hospital das Clínicas de Bauru –, estabelece que esse novo complexo, composto pelas Unidades 1 e 2 do HRAC-USP, absorverá a assistência à saúde atualmente oferecida pelo Centrinho e servirá de campo para cursos de graduação e pós-graduação nas áreas relacionadas com as ciências da saúde da USP e de outras universidades locais”, explica.
“Com a importante sinalização do Governo do Estado [em 21/05/2020] de que o HC continuará após a pandemia, com serviço de referência hospitalar e ambulatorial para os municípios do Departamento Regional de Saúde de Bauru (DRS-6) e também como hospital-escola para a área de saúde, é preciso avançar com a assinatura do Acordo de Cooperação Técnica, que se encontra em avaliação na SES-SP desde outubro de 2019. Como temos enfatizado, o Acordo de Cooperação Técnica é o instrumento jurídico previsto no Decreto de criação do HC pelo qual a SES-SP assume, de fato, a posse e custeio do complexo hospitalar”, pontua o professor Carlos Ferreira dos Santos.
Outro passo fundamental a ser alcançado em um futuro próximo, segundo o dirigente, é a criação da Faculdade de Medicina de Bauru. “Já trabalhamos em um projeto para a criação da tão sonhada Faculdade de Medicina de Bauru, tendo em vista que o atual Curso de Medicina é, por ora, oferecido pela FOB-USP”.
Vidas transformadas
Os pacientes nascidos com fissura labiopalatina ou outras malformações craniofaciais apresentam alterações tanto estéticas como funcionais. As principais implicações que as fissuras podem trazer ao indivíduo são dificuldade na alimentação, alterações na arcada dentária e na mordida, comprometimento do crescimento facial e do desenvolvimento da fala e audição. Ao longo dos anos, essa condição pode inclusive trazer impactos sociais e emocionais, como o bullying.
Outras malformações craniofaciais comprometem inclusive função vital como a respiração, e, se não tratadas no momento e de maneira adequada, podem trazer consequências severas.
“Eu gosto muito de fazer lives, principalmente com temas motivacionais. Também gosto muito de palestrar e, graças ao Centrinho, hoje eu posso fazer isso. Pude ir para muitas feiras de games [jogos eletrônicos] e já fui convidado para falar em várias escolas. Pretendo continuar sendo palestrante, mas me encantei muito pela área de Direito. Para o futuro, também pretendo ser juiz. Esses planos podem ser audaciosos, mas temos que sonhar grande para sermos grandes”, diz Iarley Bermudes, de 13 anos.
A deficiência auditiva também tem impacto significativo na vida dos pacientes, podendo prejudicar a comunicação e as atividades cotidianas dessas pessoas.
“Fiz o implante coclear com oito meses de idade. As maiores dificuldades são os ambientes com muito ruído, o volume às vezes estar baixo e a dificuldade de localizar a origem do som, mas tenho uma vida normal. No Centrinho me sinto muito segura e acolhida. Todas as pessoas nos tratam com respeito e igualdade! As orientações e os ajustes no implante coclear me permitem ter uma vida normal no colégio e no meu dia a dia”, conta Alice Sá Caye, de 12 anos.
O momento da descoberta dessas condições – após o nascimento da criança ou mesmo durante a gestação –, geralmente, provoca grande choque aos pais e familiares. O desconhecimento ou falta de informação ampliam essa angustia.